segunda-feira, 21 de novembro de 2016

História da Rede Globo


Indo no sentido contrário ao que dizem muitos críticos e intelectuais, Dominique Wolton (1996) vê a televisão como responsável pelo laço social na sociedade de massa em que vivemos. Para ele, a audiência televisiva é inteligente e crítica. O que ele chama de “modelo geralista” seria a televisão “aberta” no Brasil. Voltada para a grande massa, esse modelo deve ser preservado, já que a televisão temática e segmentada contribui para a atomização do corpo social e restringe os cidadãos a guetos.

Para Wolton, a grande ameaça hoje em dia não é a massificação e a estandardização, mas a individualização e a atomização.A grande força da mídia televisiva sempre decorreu do fato de dirigir-se a todos os tipos de públicos. Se assistimos a televisão temática e segmentada, pelo fato dela só ser acessível às classes mais altas, ou seja, as classes desfavorecidas economicamente não têm esse acesso, perdemos muito do que ele chama de laço social, papel esse essencial, que é desempenhado pela televisão “geralista” ou “aberta” no Brasil.
Segundo Wolton, a televisão é elemento central da democracia de massa e exige um verdadeiro investimento intelectual para que se compreenda o seu papel. No entanto, durante muito tempo, o mundo acadêmico não refletiu o suficiente sobre a televisão, como se ela não fosse um objeto de conhecimento “nobre”! Muitos consideravam que tudo era simples: não havia nada a se esperar da televisão! Na realidade, a elite cultural e intelectual não se interessava muito pela televisão porque tinha outros instrumentos culturais à sua disposição! Esse, porém, não é ocaso de milhões de pessoas para quem ela é, ao contrário, o principal instrumento de informação, de cultura e de distração.

A história da televisão brasileira passa por uma paixão imediata do público por ela. Sem contar com nenhuma emissora pública importante (em termos de audiência) a televisão dominada pelo modelo privado, resultou numa programação às vezes de boa qualidade, às vezes de má qualidade, mas que sempre buscou estar próxima da sociedade brasileira. Para Wolton (1996), “a televisão privada,grande, dominante no Brasil,conseguiu, no geral, atingir o papel de laço social proporcionado pelas televisões públicas na Europa!”.

Desde sua chegada no Brasil em 1950, pelas mãos e determinação de Assis Chateaubriand, até os dias de hoje, podemos verificar que num país de dimensões territoriais como as nossas e de cultura de massa diversificada e fértil, que mistura tradição e modernidade, a televisão desempenha uma função marcante na consolidação da identidade nacional. Ainda segundo Wolton, honra seja feita! Uma grande parte da tradição “pública” da televisão brasileira e do papel de serviço público provém, na realidade, da hegemonia dessa televisão “privada”! Criada em1965, a Globo é um dos símbolos da identidade brasileira: gosto pela modernização, pelo desafio, influência norte-americana,vontade de se distinguir. Sua força, que na Europa reside na televisão pública, foi de dirigir-se a todas as camadas da população.

Como o objetivo desta pesquisa é estudar a mídia de chamadas, um estratégico mecanismo utilizado pela programação da Rede Globo, vamos a um pequeno histórico dessa emissora. Criada em abril de 1965 pelo jornalista Roberto Marinho, que era dono do jornal “O Globo”, a TV Globo, canal 4 do Rio de Janeiro foi o início da maior rede de televisão do Brasil até hoje. No mesmo ano, comprada a TV Paulista que se tornou a TV Globo de São Paulo.

A Rede Globo foi criada com base em um modelo americano de televisão,mas ao longo do seu desenvolvimento construiu um estilo original que sempre buscou adaptar-se ao gosto médio da população brasileira. Em 1969, com o lançamento do “Jornal Nacional”, a Globo se transformou em uma rede de alcance nacional. Em 1972, iniciou sua transmissão em cores. Na década de 80, se aperfeiçoou tanto técnica como esteticamente, criando novos formatos desprogramas de entretenimento,dramaturgia e jornalismo.

Segundo dados fornecidos pelo Departamento Comercial da emissora, hoje a Rede Globo tem cento e quinze afiliadas,atinge 99% do território brasileiro e tem uma participação de 60% no número de televisores ligados no considerado “horário nobre”. Esse público é formado por crianças, homens e mulheres das mais variadas faixas etárias, pertencentes a todas as classes sociais e ficam, em média, mais de quatro horas por dia diante do aparelho de TV. Esse enorme índice de audiência se torna mais significativo,se levarmos em conta, que hoje existem mais cinco redes de televisão “aberta” no Brasil e vivemos uma época de popularização do controle remoto, que amplia o poder de livre escolha do telespectador.

Para Wolton, existe, por certo, uma hegemonia da Globo, mas não um monopólio, pois a Globo influenciou a tal ponto a evolução da sociedade brasileira que ela própria não conseguiu evoluir no ritmo das mutações extremamente rápidas daquela. O argumento é simples: essa televisão não poderia ter tal audiência se estivesse defasada em relação às expectativas dos brasileiros … o seu sucesso provém também, do fato de ter conseguido, em trinta anos, tornar-se ao mesmo tempo espelho e parte do ideal brasileiro.

Hoje, a Rede Globo dedica quase toda a sua grade de programação a produções brasileiras, exportando para vários países do mundo muito dessa produção, principalmente suas telenovelas.Produto símbolo da televisão “aberta”brasileira e responsável pela conquista dos maiores índices de audiência, ao longo de sua história, a telenovela sempre foi o maior destaque na programação da Rede Globo. Com três horários de exibição diários e inéditos por dia, a telenovela das seis, das sete e das oito – o horário nobre– e mais um horário vespertino, diário de reprise – Vale a Pena Ver de Novo– a Globo é hoje a maior produtora de“folhetim eletrônico” do país. Desde outubro de 1995, ela ocupa uma área de 1.300.000 metros quadrados em Jacarepaguá, onde funciona a Central Globo de Produção – mais conhecida como PROJAC.

Ao concentrar num único local o maior número possível de etapas de realização de um programa, desde a pré-produção até a finalização nas ilhas de edição, o PROJAC tornou-se o maior centro de produção para a televisão na América Latina. É aí que são produzidas as histórias que alcançam as maiores audiências da Globo e da televisão “aberta” no Brasil.
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